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  • Felipe Oliveira

O papel das instituições financeiras no bem-estar animal

Instituições financeiras têm um papel fundamental na sociedade. Elas trabalham para intermediar o fluxo de recursos financeiros na economia, permitindo, dentre outras coisas, que empresas invistam em desenvolvimento de novos produtos e serviços, crescimento de suas operações e que pessoas façam compras importantes para suas vidas.


As instituições financeiras também são importantes para o desenvolvimento econômico e a estabilidade financeira de uma região, ajudando a atrair investimentos e apoiando a criação de empregos.


Como parte integrante da sociedade, e dada a importância de seu papel nela, essas instituições têm uma enorme responsabilidade para com os seres vivos que dela fazem parte.


Tipicamente, as instituições financeiras realizam avaliações de diligência sobre seus potenciais clientes, avaliando riscos sociais, ambientais e de governança associados a uma empresa. Essas avaliações frequentemente abrangem assuntos como direitos humanos, desmatamento e mudança climática, no entanto, a exploração de animais na cadeia de fornecimento raramente, ou nunca, é considerada.


Bilhões de dólares são injetados anualmente em empresas ligadas a práticas de crueldade animal, como alguns setores da agroindústria, onde dezenas de bilhões de animais são confinados em gaiolas minúsculas e submetidos a mutilações, ferimentos, estresse e frustração por toda a vida. Exploração e crueldade com animais também ocorrem em outras indústrias que recebem valores bilionários de instituições financeiras anualmente, como a da moda, farmacêutica, de cosméticos e entretenimento.


Os bancos tem papel fundamental em evitar práticas de crueldade animal
Os bancos tem papel fundamental em evitar práticas de crueldade animal. Fonte: Mídia Wix

Pesquisa GBR 2022


Na pesquisa Guia dos Bancos Responsáveis de 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) com as maiores instituições financeiras brasileiras, pela primeira vez foi incluído o “Bem-Estar Animal” como um dos temas avaliados. O tema avalia se as instituições têm diretrizes que levam em conta o tratamento adequado dos animais, já que investem e financiam empresas nos setores de pecuária, pesca, farmacêutico, cosméticos, de animais de estimação, entre outros. O resultado foi que todos os bancos tiraram nota ZERO. Nenhum banco brasileiro considera o bem-estar animal em qualquer de suas diretrizes de financiamento de projetos e empresas.


Segundo a Fair Finance: “o objetivo do estudo [Guia dos Bancos Responsáveis] é fornecer aos consumidores uma visão geral do que as instituições financeiras fazem com seu dinheiro, que tipo de empresas financiam e em que medida consideram aspectos como desmatamento, respeito aos direitos humanos e relações de trabalho”.


Para pessoas, empreendedores e empresários que entendem a questão da crueldade com animais como um ponto relevante que precisa ser combatido, saber o tipo de iniciativa que seus bancos têm em relação ao tema é fundamental. Neste caso, também é desolador, visto que o tema é totalmente ignorado pelos maiores bancos do país.


Caso National Australia Bank


Em 2019, o National Australia Bank (NAB) foi o primeiro grande banco australiano a desenvolver um conjunto de “Princípios de Bem-Estar Animal”. Segundo o banco, esses princípios descrevem boas práticas e estabelecem que os clientes do banco terão de atender regulamentos, normas e convenções relacionadas ao bem-estar animal, bem como estabelece as atividades relacionadas a animais que não seriam financiadas.


A iniciativa do NAB foi elogiada por alguns políticos, consultores e jornalistas australianos, mas foi ferozmente criticada pela indústria da carne e de produtos animais. Porta-vozes dessas empresas consideraram a iniciativa uma reação exagerada a grupos ativistas climáticos e de direitos animais.


Considerando o impacto devastador que a indústria da carne têm no meio-ambiente, nos ecossistemas globais e na vida de bilhões de animais, a única iniciativa exagerada seria ignorar a importância que diretrizes como a do NAB têm na economia, nas comunidades e no planeta.


Pesquisa Sinergia Animal


Em 2021 a organização Sinergia Animal realizou provavelmente a maior pesquisa com foco específico nas práticas de instituições financeiras em relação ao bem-estar animal. O relatório avaliou as políticas de 69 instituições financeiras em todo o mundo, com um foco especial nas organizações que financiam operações e empresas no Sul Global.


O resultado é chocante:

  • Dos 21 critérios avaliados, apenas 3 empresas apresentaram resultado satisfatório em pelo menos 50% dos critérios;

  • 72% das instituições não obtiveram uma única pontuação satisfatória em qualquer critério;

  • 91% das instituições financeiras avaliadas obtiveram pontuação abaixo de 50% do total disponível pontos.

Curiosidade sobre o estudo: dentre os 8 primeiros colocados há somente bancos da Holanda (Países Baixos) ou da Austrália, sendo o NAB (citado anteriormente) o sétimo colocado. Os 3 que mais pontuaram foram Triodos (Países Baixos), com 40 de 42 pontos possíveis, de Volksbank (Países Baixos), também com 40 pontos, e Australian Ethical (Austrália), com 31 pontos.


O banco brasileiro em melhor colocação é o Banco do Brasil com um total de 3 pontos acumulados do total de 42. Todos os outros fizeram 2 ou menos pontos: BNDES (2), Itaú Unibanco (2), Bradesco (1) e BTG Pactual (1).


A inação generalizada por parte de bancos rurais e agrícolas em relação ao tema foi um ponto de atenção do relatório. Segundo o estudo: “É particularmente preocupante que os bancos que têm, por sua natureza, uma alta exposição ao setor pecuário, como os bancos rurais ou agrícolas, obtêm, em média, notas tão baixas. Estes bancos devem estar bem cientes das realidades cruéis da agricultura industrial, e estão bem posicionados para orientar seus clientes a mudar para sistemas de bem-estar animal mais elevados. Eles também estão mais expostos aos riscos de não o fazer.”


Um ponto de destaque que impede a adoção de diretrizes que tratam do bem-estar animal por parte de instituições financeiras é o domínio político da agroindústria nos principais países produtores de carne e produtos animais. Este ponto aliado à falta de leis adequadas, normas reguladoras e de infraestrutura de monitoramento acaba minando a ambição dos bancos em relação ao bem-estar animal e, também, aos impactos climáticos da agroindústria.


Outro fator importante é o conflito de interesses entre o aspecto ético e a pressão por resultados das empresas que recebem investimentos e empréstimos. De acordo com o estudo:

“Entre 2011 e 2020, as instituições financeiras forneceram mais de USD 628 bilhões em empréstimos e underwriting para empresas de carne e laticínios, e detinham USD 226 bilhões em títulos e ações dessas empresas em março de 2020.”

chove dinheiro no agronegócio
Chove dinheiro na agroindústria. Fonte: DALL-E

Um dos casos citados no estudo é o da BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, com sede no Brasil. A empresa e seus fornecedores se utilizam de práticas já há muito tempo consideradas extremamente cruéis e banidas em diversas empresas e países como: uso de celas de gestação para porcos, remoção de cauda de leitões sem anestesia, uso de celas de parto em sua cadeia de fornecimento, dentre tantas outras.


Apesar das práticas de altíssima crueldade, a BRF recebeu cerca de USD 3 bilhões de empréstimos entre 2015 e 2019 de um total de 13 bancos. Desses 13 bancos, 11 foram avaliados pelo estudo acima e nenhum deles chegou a atingir 50% dos pontos possíveis. Caso essas instituições passassem a adotar critérios mais elevados e exigentes de bem-estar animal, haveria grande chance de eliminar boa parte das práticas cruéis adotadas pela empresa.


Conclusão


De maneira geral as instituições financeiras fornecem às empresas que trabalham com animais o financiamento de que necessitam para suas atividades sem fazer uma só pergunta sobre a forma como os animais são tratados no sistema de produção. Em vez disso, como boa parte das instituições financeiras busca a maximização do lucro no curto prazo e a qualquer custo, elas muitas vezes tendem a empurrar para uma maior intensificação da produção ao custo do bem-estar dos animais.


dinheiro de instituições financeiras ao custo de crueldade com animais
Dinheiro ao custo de muito sofrimento. Fonte: DALL-E

A mudança na demanda dos consumidores e as promessas da empresa de priorizar o bem-estar animal no abastecimento estão impulsionando a demanda por produtos alternativos e éticos. A legislação futura, como a proibição da UE de enjaulamento de galinhas até 2027, pode restringir o acesso ao mercado para empresas com práticas inadequadas de bem-estar animal, impactando os resultados e a capacidade de pagamento das empresas.


Além disso, os consumidores cada vez mais buscam comprar produtos e serviços de empresas com práticas éticas e que não causem sofrimento humano, animal ou destruição de biodiversidade. O papel das instituições financeiras ao financiar empresas com essas práticas ainda não é muito claro para as pessoas, mas isso deverá mudar.


Com o trabalho de organizações de proteção animal e de proteção dos direitos dos consumidores, principalmente na esfera digital, essas informações e práticas serão divulgadas, e estarão cada vez mais presentes na vida das gerações que estão mais inclinadas a agir em relação a problemas climáticos e éticos nas sociedades.


Portanto, negligenciar o bem-estar animal não é somente uma ação ética questionável mas um enorme risco operacional e financeiro para bancos e investidores no médio e longo prazo.

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