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  • Felipe Oliveira

O potencial da carne cultivada no Brasil

Atualizado: 12 de jan. de 2023

A carne cultivada, também conhecida como carne celular, é um tipo de carne produzida em um ambiente de laboratório e não de animais criados para o abate. Ela tem o potencial de revolucionar a indústria alimentícia fornecendo uma fonte de proteína mais sustentável, mais barata e sem causar sofrimento animal no processo de produção.


O potencial da carne cultivada como tecnologia disruptiva tem sido amplamente reconhecido ultimamente, como evidenciado pelo número de empresas que têm apostado neste produtos nos últimos anos, tanto startups quanto grandes empresas.


No Brasil, a carne cultivada tem o potencial de se tornar um grande player na indústria alimentícia, oferecendo uma gama de produtos diferentes para os consumidores veganos, vegetarianos, flexitarianos e onívoros. O governo brasileiro já indicou que vai tomar medidas para regulamentar o setor e apoiar o desenvolvimento da indústria. Além disso, a grande população do país e sua dieta diversificada tornam o mercado brasileiro particularmente atraente.


Salmão cultivado em laboratório
Salmão cultivado. Fonte: We Animals Media

O futuro da indústria de carnes cultivadas no Brasil parece promissor, com uma série de empresas e institutos de pesquisa fazendo investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento. A indústria também pode se beneficiar do forte setor agrícola do país, com infraestrutura bem desenvolvida, abundância e grande variedade de matérias primas. À medida que o mercado brasileiro amadurece, a carne cultivada tem o potencial de se tornar um dos principais players da indústria alimentícia, proporcionando aos consumidores uma alternativa sustentável e sem crueldade à carne de origem animal convencional.


O Potencial do Mercado de Carne Cultivada no Brasil


O Brasil possui o maior rebanho bovino (mais de 210 milhões de animais) e é o segundo maior exportador de carne bovina do mundo. Entretanto, esta indústria enfrenta diversas questões importantes: seu alto impacto ambiental, uso indiscriminado de antibióticos, a prevalência da crueldade animal em seu processo produtivo e sua dependência de práticas agrícolas insustentáveis. Em 2015, o Brasil abateu 39 milhões de animais para fornecimento de carne bovina ao mercado interno e externo.


A carne cultivada tem o potencial de mitigar todos esses problemas.


Somado aos problemas ambientais e éticos que podem reduzir, o potencial de mercado das carnes cultivadas é muito grande. Segundo estudo realizado pela McKinsey, estima-se que em 2030, a carne cultivada poderá responder por até 2,1 milhões de toneladas métricas de produção anual de carne e se tornará uma indústria de 25 bilhões de dólares. Já a AT Kearney estima que em 2040 a carne cultivada deverá ocupar por volta de 35% do mercado global de carnes e valerá cerca de 630 bilhões de dólares.


Algumas iniciativas já estão em curso no Brasil. A BR Foods realizou investimento recente na startup israelense Aleph Farms e pretende oferecer carne cultivada bovina no mercado brasileiro a partir de 2024. Além disso, a empresa brasileira Ambi Real Food, de Porto Alegre, vem desenvolvendo produto com tecnologia nacional em parceria com a UFRGS e a UNISINOS.


carne da aleph farms
Carne da Aleph Farms. Fonte: Aleph Farms

Se as empresas, institutos de pesquisa, órgãos regulatórios e os consumidores caminharem em conjunto e com velocidade, o Brasil tem enorme potencial de se tornar um dos destaques de produção, exportação e consumo de carne cultivada.


Os Desafios do Mercado de Carne Cultivada no Brasil


Apesar do grande potencial, a carne cultivada ainda precisa superar vários desafios antes que possa ser amplamente adotada. Esses desafios incluem: processos regulatórios, a necessidade de redução de custos de produção e o endereçamento das preocupações dos consumidores em relação à segurança e aceitação do produto. Além disso, é possível que a carne cultivada enfrente resistência de atores do setor de carne tradicional, altamente influentes no país, que podem ver a tecnologia como uma ameaça ao seu negócio.


Neste último ponto, vemos que as grandes empresas, como BR Foods e JBS, já estão posicionadas no mercado de proteínas alternativas, com grande investimento em produtos e marcas focadas em proteínas vegetais há pelo menos 3 anos, e estão acompanhadas de diversas outras marcas que investem alto em alternativas vegetais à produtos de origem animal.


No aspecto regulatório, ainda não são contempladas regras específicas para a carne cultivada no Brasil. Porém, o tema já vem sendo discutido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Cingapura já permite a comercialização de alguns tipos de carne cultivada e o FDA (órgão que regulamenta a venda de alimentos e medicamentos nos EUA) aprovou os produtos da marca Upside Foods em novembro de 2022. O Brasil deve seguir na linha desses países nos próximos meses e anos, inclusive contemplando as carnes cultivadas no próximo marco regulatório plant-based, a ser estabelecido em 2023.


Adicionalmente, os desafios econômicos devem ser considerados. A carne cultivada, onde é disponível, ainda é um produto caro, e deve competir com os produtos de origem animal existentes, que são mais acessíveis. Isto poderia ser um grande obstáculo para a indústria no Brasil, pois é um país com uma grande população de classe média que é sensível aos preços. O alto preço do produto tem a ver com o alto investimento necessário para que haja capacidade de produção em escala, algo que deve diminuir com o tempo, novas tecnologias e ganhos reais de escala no desenvolvimento de novos produtos, produção e distribuição.


Por fim, o desafio cultural e social não deve ser subestimado. Apesar dos benefícios potenciais à saúde da carne cultivada, principalmente por não utilizar antibióticos e possuir maior controle sanitário em seu processo de fabricação, deve-se esperar bastante hesitação por parte dos consumidores, que podem apresentar preocupação com a segurança e conteúdo nutricional dos produtos. A indústria precisará investir em campanhas de educação e conscientização do consumidor a fim de conquistar o público e persuadi-lo a experimentar e adotar o hábito de consumo desse novo tipo de carne.


Como Superar os Desafios do Mercado de Carne Cultivada no Brasil


É fundamental trabalhar de maneira próxima e colaborativa com as autoridades regulatórias para garantir que as regulamentações existentes e, principalmente, as que serão construídas com o marco regulatório plant-based sejam aplicadas de maneira eficaz e justa à carne cultivada.


Para tornar a carne cultivada mais acessível, é preciso encontrar maneiras de reduzir os custos de produção. Isso deverá incluir o uso de técnicas de produção mais eficientes, a busca por fontes de matéria-prima mais baratas e o aumento da escala de produção por meio de investimento em capacidade instalada produtiva.


O receio em experimentar novos alimentos e o hábito de consumo de carne podem ser importantes obstáculos para a introdução de carne cultivada no mercado brasileiro. Para superar esses desafios, é preciso fazer campanhas de marketing e de comunicação eficazes para esclarecer aos consumidores sobre o processo de produção da carne cultivada e destacar os benefícios à saúde, ao meio-ambiente e aos animais em relação à carne tradicional. Também pode ser útil trabalhar com chefs e influenciadores para promover receitas com carne cultivada e construir demanda para esse tipo de produto.


Conclusão


O potencial da indústria de carnes cultivadas no Brasil é vasto. O país tem uma população grande e crescente, e uma alta demanda por produtos de origem animal. O mercado está maduro para inovações e novos produtos e a carne cultivada oferece uma alternativa à produção tradicional de carne, sendo mais sustentável e sem crueldade animal. Além disso, o Brasil possui uma forte infraestrutura agrícola, recursos e matéria-prima abundantes e uma indústria de produção de alimentos bem desenvolvida que pode capitalizar o crescimento do mercado de carne cultivada.


No entanto, ainda existem desafios significativos enfrentados pela indústria. As carnes cultivadas ainda não passaram pelo processo regulatório no Brasil e o custo de produção é atualmente alto. Além disso, a indústria carece de entendimento e compreensão do público, o que pode dificultar o alcance de clientes potenciais.


Para superar esses desafios, a indústria precisa trabalhar em estreita colaboração com os reguladores, se concentrar na redução dos custos de produção e investir na educação do público consumidor.


Com as estratégias corretas, a carne cultivada tem o potencial de se tornar uma verdadeira revolução da indústria alimentícia brasileira.



 

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